sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Aconteceu no verão




A árvore crescera demais pondo em risco os alicerces da casa vizinha. Decidiram derrubá-la.


Um ninho de bem-te-vis dormia tranqüilo entre as hastes rubras de uma exótica floração, a oito metros de altura. Cada golpe do facão cortando as galhas ressoava em mim... e de repente eu tinha três anos: nossa babá, Raimunda, subira no alto pé de fruta-pão; alguém com um machado fingia cortá-lo, brincando de recriar um conto de horror (e eu acreditei). Raimunda cantava “urubu, pé de pato, viiivo, tira-me daqui pra fora, viiva!” numa voz lúgubre que apavorava. Essa lembrança travou-me o peito: como Raimunda, um ninho indefeso corria perigo.


Ao despencar com estrondo, a galharia raspava os muros na aflita tentativa de agarrar-se. Num baque surdo, o tronco rendeu-se ao inevitável. Corri a salvar o ninho e o acomodei num velho toco em meu terraço. A bem-te-vi piava espavorida. Temi que abandonasse os três filhotes; mas, não; no dia seguinte - que alegria! - após cautelosa aproximação, deu-se a rotina de pios, minhocas, o entra e sai do ninho.


Com o coração nos lábios, eu imitava pios, ansiosa que se adaptassem, que soubessem de meu amor por eles.


Habituaram-se aos poucos com nossa presença: toda manhã, eu e meu marido os visitávamos - a ver se estavam bem, se o angorá do vizinho não estava a dormir - a pança cheia de bem-te-vis. (Se os viu, não lhe apeteceram; assim pelados, sem penugem eram bem feiosos). Até que despontou um veludilho amarelo no peito, peninhas pretas no cocuruto, asas alongaram-se e os três pimpolhos começaram a bisbilhotar fora do ninho, embora ainda não voassem.


O mais afoito, certa manhã, apareceu morto no chão. Senti muito. Fiz-lhe um tumulozinho no jardim e o vêm visitar as borboletas. Logo, outro ousou um hesitante vôo. Ficou dias pousado na palmeira. Os pais o encorajavam, alimentavam e, afinal, ele ganhou mundo, venceu o espaço, amigou-se ao vento.


O terceiro, tímido, não passava do ninho ao toco, do toco ao ninho. Eu lhe dava sementes (comia na minha mão), o acariciava, alinhavava o ninho que a ventania desalinhavava, falava-lhe dos espaços sem fim. Êta medroso! Dali não arredava. Resolvi ensiná-lo a voar: tomei-o nas mãos e o joguei para o alto. Pego de surpresa ele agitou freneticamente as asas, desnorteou-se, bateu na rede e se estatelou no chão. Insisti: jogava-o para o alto e o amparava. Não era bobo o bem-te-vi; aprendeu rapidinho a voltar para minha mãos após curto voejar. Treinei-o vários dias.


Eu queria muito vê-lo dar o primeiro vôo solo. Seria como o primeiro passinho de um filho, o primeiro balbuciar... filho é filho e eu já me sentia mãe-te-vi.


Ele entendeu o meu amor. Numa inesquecível manhã, lá estava ele à boca do ninho, como a esperar-me. Piou. Piei. Deu um pulinho para o topo do toco, agitou as asinhas, abaixou levemente o corpo, tomou impulso e... zás!


O peito amarelinho fulgiu ao sol. Minha vista ofuscou-se.


Hoje, a cada pio de bem-te-vi, responde meu coração.

1 comentários:

  1. oi - eu nem acreditei quando vi essas fotos...

    só vc mesmo poderia ser amiga dos passarinhos.

    Curti.

    fulano

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