
Na cabeça da menina sempre se misturam as história lidas e as vividas. Mesmo porque, quando lê – vive! Ressente-se quando a chamam de inventadeira. Não; ela não inventa nada; apenas vive também um mundo paralelo onde tudo é possível! Tudo é possível!
Há três dias Kilú desapareceu. Está grávida – uma barrigona desse tamanho, as tetinhas inchadas, o andar pesado. Arrumaram-lhe caixa de papelão, pano macio, um cantinho abrigado atrás do tanque. Ensinaram-lhe: - É aqui que vc vai ter os filhotes!... Kilú farejou e se desinteressou. Agora sumiu! Onde se meteu? (... e ela que prometeu dar um para o amigo italiano que constrói a estrada?! ).
Virginia disse que viu Kilú indo pros lados da pedreira. Será? A pedreira, maciça de um lado, do outro é como se houvesse sido partida por um raio; pedras enormes caídas cada uma de seu jeito, formam grotas, esconderijos. Em cima há cactos e bromélias cheias de água. Minúsculas fadinhas disfarçadas de libélulas chamuscam o ar de cintilâncias. Antes tinha uma cabritinha por lá. Tem mais não.
A menina parece uma cabritinha subindo na pedreira. É de vento e de sol a liberdade. Lá em cima abre os braços, fecha os olhos, bebe todo o ar que cheira a maresia e sal. O mar ao longe brilha. O pasto em volta, regado pelo orvalho da noite, recende um cheirinho bom de mato - ela “fareja” as diferenças. Entre duas pedras, um vão. Lá dentro, escuro. Ela supõe - é lá o esconderijo da Kilú. Ao mesmo tempo duvida, por conta de uma teia de aranha, toda emaranhada com enfiadas de gotículas de orvalho. Todas com luz dentro.
Lembra-se da historia que leu de quando José e Maria fugiam para o Egito para escapar de Herodes, levando o Menino Jesus. Ao ouvirem o tropel dos guardas do rei, esconderam-se numa gruta. Prontamente uma aranha teceu uma teia fechando a entrada. Os guardas olharam e disseram: -Aqui não estão, senão a teia estaria rompida. Foram salvos pela aranha.
Algo... um leve gemido chama-lhe a atenção – e outro cheiro insinua-se; o de cachorrinho molhado. Agora, na certeza, senta-se no chão, de campana. Espera Kilú sair, para pegar os filhotes. É fresquinho, ali. Um musgosinho verde aveludado reveste a pedreira. Tira um canivetinho do bolso e pôs-se a limpar as unhas, como vira o homem do trator fazer (orgulha-se de ser a única menina que tem um canivete). Kilú não sai.
Virgínia surge no alto da pedreira, silhueta contra o sol que ofusca.
- Sai daí!... chama, e insiste: – Aí deve de ter cobra. O jeito é a gente atrair a Kilú com comida e mandar o Ticão pegar os filhotes, diz. Ticão mora perto do mangue. A menina cisma: Ticão... com aquela barriga?
Falado e acertado ele garante o acerto, mas até de noite... nada!
De noite chove grosso. Pingos enormes furando o telhado. Um trovão estremece a casa. A menina pula da cama e vai olhar na vidraça. Vê Kilú, esbranquiçada pelos relâmpagos a cruzar o pasto; traz na boca um filhote. Parece um fantasminha molhado.
Quando Virginia desconfiada dos barulhos vai ver (não sem antes jogar um cobertor na cabeça), lá estão, na caixa, Kilú e seis filhotes pelados a se empurrarem em busca das tetas que logo sugam com avidez.
De pé, a camisolinha encharcada, trêmula, magrinha, bracinhos cruzados protegendo o peito, a menina parece uma vela bruxuleante. O rosto molhado (uma chama) brilha feliz.
Kilú, exausta, oferta-se à gula dos seis. Um ar resignado de maternidade consciente a faz quase humana. O olhar... ah, não há nada mais expressivo que o olhar de um cãozinho!
Nena, uma delícia essa crônica...dá um frescor de musgo orvalhado
ResponderExcluirPaulo Paiva
(recebido por e-mail)
que crônica linda !!!
ResponderExcluirque imagens !!!
é um cinema, um curta-metragem de pura poesia
adorei adorei adorei
Janine