quarta-feira, 5 de outubro de 2011

No resgate das saudades


... imagens antigas cantam ainda canções de sóis e luas, ventanias e areias, guruçás e manjubas, goiabas e pitangas. Mas, da menina moleca que eu fui, não restaram as tranças, nem os laços das tranças, nem o estilingue e o boné; só o coração livre e travesso que ainda faz das suas – como guardar no esconderijo de um buraco na parede de pedra as lembranças mais caras, para que nada as destrua.


São tesouros! Entre eles, o de uma figura humana – Humana – inesquecível – o engenheiro italiano Nicola Campanelli (já lhes conto), sua casa/navio e uma amizade inusitada, feita de surpresas, arrebatamentos e alegrias.


A vida nos leva a galope aos nossos destinos, muda caminhos. Por onde andei (e girei mundos) sempre acalentei o secreto desejo de revê-lo, mas, na encruzilhada dos passos, nossas pegadas se afastaram.


Ligado profundamente a uma fase de minha infância (conheci-o aos 12 anos) sua figura nunca se diluiu na minha saudade. Escrever sobre ele era um jeito de resgatá-lo. Assim o fiz, mais de uma vez.


Passaram-se sessenta anos. Para minha imensa alegria, uma de minhas crônicas, publicada na Gazeta de Vitória, foi parar (não sei como) nas mãos de um de seus filhos (lá em Mogi das Cruzes SP). Emocionado, ele me escreveu. Foi como se do fundo do tempo uma voz me chamasse e também emocionada, eu respondi. E falou mais alto a saudade, e as lembranças borboletearam coloridas.


A crônica reproduzo aqui, para partilhar com vocês que me visitam, esse momento de um feliz encontro com um passado longínquo, de um afeto que, tenho certeza, acendeu uma nova chama.


Quem riscou o fósforo foi o Marcelo – seu filho!


“E LA NAVE VA...”


C’era uma volta um piccolo navio
che non sappeva, non sappeva navigare...”


Onde está a nave de enfunadas velas que abrigou meus devaneios de menina aventureira?

Minha nave erguia-se imponente à beira do mar. Como uma grande barcaça em repouso, embalada pelo marulho das ondas e o vento norte, vento forte, cheirando a maresia e sal. Não; não era “piccola”; era grande, enorme, e para navegar bastava-lhe um sonho. Tinha coração a minha nave. Um coração impetuoso, turbulento e terno.


Foi assim: havia grandes espaços abertos – o areal, a restinga, pedreiras com seus cactos em flor e paus-de-pita. Muita pitanga, amoras silvestres, cajus, goiaba vermelha, branca, goiaba bichada, para todo gosto. Os guruçás festejavam as noites de lua (milhares deles). Noitinha chegando, o programa era pegar Tatuí no vaivém das ondas. Programa que acabava em “fritada”.


Era a Praia da Costa dos anos cinqüenta – onde não passava ônibus mas passava boi, passava boiada, solta e livre. Poucas casas havia e tão espalhadas que não ocupavam lugar. Na praia da Sereia, algumas casas de veranistas, pitorescas casinhas de pescadores cujo jardim era a areia da praia, florida de barcos e redes e molecotes morenos, espertos, felizes. O Clube dos 40, na ponta da praia, tinha um certo charme. Mais longe, numa enseada tranqüila, a casa do governador (naquele tempo Carlos Lindenberg), sempre aberta às nossas visitas e serenatas. Uma estradinha de terra, esburacada, levava a Vila Velha.


Eu vivia por lá; eu e Paíco-meu-primo. Inseparáveis...onde estava um estava o outro; onde estava o outro estava um. E nós três – ah, sim; a terceira personagem era Kilu, a cachorrinha bassê – conhecíamos cada grão de areia, cada forquilha de goiabeira, cada camaleão e rolinha.


Um belo dia, estávamos eu, Paíco e os filhotes da Kilu que faziam então suas primeiras excursões, a deambular por ali, e eis que nos surge, de supetão, um homem grande e cheio de braços, falando uma mistura de italiano com português. Todos os braços gesticulavam e a voz comandava o vento. Atrás dele uns homenzinhos de prancheta na mão e instrumentos topográficos tomavam sérias medidas em cima, em baixo e em torno da indiferente estradinha. Era tudo interessantíssimo; nós não queríamos perder nada!


Logo fomos notados: - Eh! Bambini, venite quà! Ma come, come vi chiamate? Che bei cani! Voglio comprare uno...


Foi amor à primeira vista entre nós, ele e os cagnoletti. Batizou-nos de Paípa e Marinella, e os dois cachorrinhos com os quais o presenteamos receberam os nomes de Gin e Whisky. Estava selada nossa amizade.


Desse dia em diante éramos a sombra do Nicola – sim; Nicola Campanelli – o engenheiro italiano contratado para asfaltar a até então humilde estradinha da Praia da Costa que tantos banhos de lama nos dava nos tempos de chuva. Até hoje eu adoro o cheiro de asfalto quente que me reporta àquela época em que eu, Paíco e o Dr. Nicola asfaltamos a estrada. Andávamos de trator, nos pendurávamos nos guindastes, empurrávamos tonéis, salvávamos bezerros e pássaros atolados no asfalto derramado.


Mas se nós já não podíamos viver sem o Campanelli, ele também tampouco nos dispensava:


- Marinella, Paípa, venite! Andiamo a vedere la casa.


Porque também construímos a casa. A casa-navio. A grande nave que despertaria meu coração navegador. Pedra por pedra, tijolo por tijolo, garrafa por garrafa... Como? Garrafa? Sim; que a fachada da casa foi decorada com fundos de garrafa: verde-oliva, caramelo, marrom-chocolate. Contra a luz transluziam coloridos. A casa, curiosíssima, tinha a forma de um navio. Tinha vigias (janelas redondas) e bem no alto a “cabina de comando”, uma torre oval. Vidraças em lugar de paredes proporcionavam magnífico panorama sobre o verde do mar e o verde da vegetação à volta por onde navegava nossa nave de sonho.


Dentro, tudo moderno. O banheiro de azulejos pretos e espelhos em profusão e, no fundo, entrando-se por uma grande arcada, uma banheira-piscina oval e, nas paredes, afrescos, onde brincavam anjinhos pelados (se bem me recordo, obra do nosso grande pintor Homero Massena). Tudo era fascinante!


O Campanelli era um tipo sui generis; alegre entusiasta, espalhafatoso, vozeirão dominante, generoso, impulsivo, exuberante e terno. “Um vero italiano, ma chè!” Subia na mesa, cantava uma ária, gesticullava e ria, ria deverasmente com gosto, como poucas vezes vi. Era o coração pulsante, vivo, anelante de nossa linda nau.


Nossa sim; tudo era um pouco meu: - “Marinella, questa è la sua camera..” “Un giorno ti porteró com me in Italia; - tu e Paípa.” Eu acreditava em tudo. O Nicola me levaria aos astros se quisesse – ele era grande como o mundo.


“C’era uma volta” uma nave de sonho. Para muitos um ponto turístico – a casa-navio – atrativo curioso que algum maluco bolou.


Para mim, um símbolo, um “ricordo” – uma saudade.


12 comentários:

  1. Adorei tanto a crônica quanto a introdução a ela. A ideia expressa pela citação em italiano, que serve de epígrafe, existe também numa canção francesa: "Il était un petit navire, il était un petit navire/ qui n'avait ja...ja...jamais navigué/oh é oh é..." Etc. Em português, há a parlenda: "Era uma vez um barquinho pequenino/que não saía e não saía e não saía do lugar..."

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  2. Adorei esse comentário e vou adivinhar quem o mandou: José Augusto Carvalho!!! acertei???

    tem sua "marca registrada", o francês perfeito, a cultura abrangente...

    Grande José Augusto!
    grata gratíssima. marilena!

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  3. E eu me reportei aos passeios à Praia da Costa, já nos início dos anos 60, no Austin verde da minha avó dirigido por meu pai, com minha mãe e meus irmãos, onde tínhamos diversos pontos turísticos interessantes - dentre eles a casa-navio, que adorávamos. Sim, pra nós era um atrativo dos mais curiosos.
    Adorei a crônica, Marilena. Beijos

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  4. Adivinhou quem foi o Anônimo... Obrigado pelo elogio... Continue produzindo. Você só escreve coisas lindas. Um abraço do JAC

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  5. Nem acredito que demoliram essa casa! Poderia tranquilamente ter se transformado numa "casa de cultura" da Praia da Costa, ou algo assim! Esse boom imobiliário transforma a Praia da Costa em caixotes de edifícios com uma muralha a beira mar!

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  6. Nena, naõ sei como lhe agradecer esse presente em forma de poesia e tanta emoção. Sorri, e quase chorei. Conheci a casa. Frequentei a Praia da costa em tempos idos. Simples: Saia da rua do Vintém, ônibus na frente Dominó...Voltava toda molhada...e feliz!A Praia da Costa nos anos 60 ainda era uma Brastemp! Saudades

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  7. queridos "Anônimos" -

    a participação de vcs me faz super feliz. Sugeri a alguns amigos escolher o "perfil" anônimo, para facilitar a postagem do comentário (eu adoros os comentários) mas, gentE... por favor... ASSINEM - se não eu vou ter que ficar adivinhando.

    O comentário acima - creio - é de Regina H. Acertei, Regina? é bem do seu jeito sensível - e vc morava na R. do Vintém.

    Obrigada, amigos - mas assinem, sim? bjão da nena

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  8. Querida Marilena, advertida pelo preâmbulo, preparei-me para fazer-lhe companhia no transcurso do seu sonho desde a travessuras em trio, ao encontro com o italiano, à sensação de que naquele ambiente havia um quarto só seu.
    Recordar é mesmo viver, reviver. Grande escrito nas asas de um sonho continuado.
    Marlusse

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  9. Não sou muito dada a ficar olhando blogs, mas vc chamou com tanta vontade que eu resolvi dar uma entradinha no seu.
    Li um monte de coisas, gostei de saber que vc asfaltou a Praia da Costa e que andava de trator.
    Mas, o que mais me impressionou foi a sua foto no Peru com uma criança (imagino ser seu filho) nas costas à moda peruana.
    Que foto linda... vc não mudou nada.
    Parabéns por sua iniciativa de postar um pouco de sua vida na web.
    Um forte abraço de quem lhe admira muito, mesmo de longe.
    Maria Beatriz Nader

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  10. oi Mãezinha
    adorei saber que a crônica teve um alcance tão distante (em kilômetros) e tão profundo (em sentimentos).
    :o)

    bjins

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  11. Que coisa!
    Acredito que cada um tem uma casa/navio dessas...
    Eu, com 27 anos, já a tenho!
    arrivederci

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  12. É.... até vejo vc acenando no convés!!!!

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