(Colégio do Carmo - anos 5o - Minha casa está semi oculta pelas palmas das bananeiras em primeiro plano)
Corneliam amat Marcus. Marcum amat Phaedra. Phaedram Marcus amat. Isso mais está parecendo o poema “Quadrilha” de Drummond: “João amava Tereza que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém.” Mas é apenas uma aula de latim.
Durante longos quatro anos, as aulas de latim foram meu tormento. Mas, paradoxalmente, eu adorava assistir as missas em latim; sabia todas as orações, hinos, as “falas” do padre e do coroinha: “- Pax Dómini sit semper vobiscum! - Et cum spiritu tuo”. Havia toda uma atmosfera mística; aroma de incenso, o tinir da sineta, as vozes afinadas em canto gregoriano, os paramentos bordados em ouro e a tudo se sobrepunha silencioso respeito. As aulas de latim ficavam a carga de Irmã Ângela. Subjugada em meus doze irrequietos anos por seu olhar atento e severo, certo dia, eu tentava a duras penas seguir as lições: rosa rosae rosarum rosis, qui que quod cuius cuius , hic haec hoc...enquanto, na sala de cima, a professora Maria Penedo ensaiava um coral “serenô, eu caio, eu caio...”
Meus ouvidos logo se mudaram para o andar de cima e, não tardou muito, a boca aderiu: “serenô, deixai cair...” meu cantar fininho tilintou como uma sineta. Num tom de contida indignação a voz de Irmã Ângela sobrepôs-se à minha: - Silêncio! (e repercutiu no meu coração assustado.) - Desculpa pfssora!
Eu não queria ser insolente. Mas, fui; alguns minutos mais tarde – “Serenô da madrugada, não deix...” – Marilena! você continua?... (ai que susto!) – Desculpa pfssora, desculpa! Mas minha sincera boa vontade sucumbia ao canto. Três ou quatro vezes depois, a paciência perdida me intimou: - Pegue suas coisas e vá, agora, para a aula de canto. Já!
Meus apelos e quase lágrimas não surtindo efeito, sai de sala cabisbaixa e um tanto apavorada. Professora Maria Penedo perfuraria minha alma com aquele olhar azul penetrante. Como enfrentá-la? Segui o longo corredor o mais vagarosamente possível, subi as escadas dois degraus pra cima, um pra baixo, arrastei-me pelo avarandado que levava às salas como uma centopéia a quem faltassem oitenta pernas... enfim, demorei-me taaanto que, ao chegar na porta da sala, ufa!... fui salva pelo gongo - bateu a sineta! O mesmo pé que ia entrar na sala, rodopiou e voltei galopando à varanda, desci a escada pelo corrimão vupt, alegrei o corredor de baixo com meus pulos e... freei abruptamente! Irmã Angela saia da sala.
Balbuciei: - Não deu tempo... Seu gélido olhar apagou minha euforia.
Viram? Bastou-me falar no colégio do Carmo na última crônica pra desamarrar uma trouxinha de lembranças. Está tudo esparramado aqui à minha volta – cenas, fatos, receios, alegrias, rostos, peculiares odores (de caderno novo, de merendeira velha, de vela apagada...) e o som salvador da sineta que marcava o fim das aulas.
E o melhor: voltei aos doze anos!
(crônica de Marilena Soneghet publicada em A Gazeta de Vitória ES 24/6/2011)
Que saudade do colégio! Nós fomos colegas de classe e andávamos de patins na ladeira. Lembra?
ResponderExcluirParabéns por suas crônicas; leio sempre e gosto muito. Marly
Ah, adorei! Uma viagem suas palavras... Muito bom!
ResponderExcluirPor essas e tantas outras, você merece carinho e um beijão!!!