(foto: Ernst A. Rudolf B. - Peru 1965)
Pulsando rítmico ao longo dos trilhos, arfando nas vertentes, desafiando as alturas nas pontes sobre profundas gargantas - los “infernillos” -, seguia corajoso o trem - a segunda linha férrea mais alta do mundo, pois atinge quase 5000 m. de altitude. E nós dentro! Eu, meu marido, e Ina, nossa filhinha, então pouco mais que um bebê.
Partindo de Lima, seguíamos para a cidade de Huancayo atraídos por sua famosa feira dominical e o que há de melhor no artesanato indígena. Pousada no Vale do Mantaro a 3.271 m. acima do nível do mar, a cidade, por si só, é um encanto e a viagem, desde Lima, cidade portuária, até nosso destino, oferece uma impressionante e variada topografia, da desértica paisagem litorânea aos píncaros andinos. As colinas vestem-se de terraças de cultivo, cumes nevados capturam luz e nos aprazíveis vales flui sôfrega, saltitante, alegre como um cântico - a água...
Nossa imaginação povoava-se de indagações - de que mutações surgira esse mundo peculiar? Que catástrofes ocorridas há milhares de anos fizeram explodir vulcões, retroceder oceanos, eclodir montanhas? Os “temblores”, a lava ardente, as águas, os ventos plasmaram os Andes - esculpiram a face do Peru.
Se para o conde de Northhumbria, em Machbeth (Shakespeare), seu ancestral era um urso encantado, o índio peruano crê descender da serpente, da onça, do condor. Deles advém-lhes a força, a destreza, a agilidade, assim como das punas o misticismo - o eterno.
O homem peruano é moldado pela natureza!
O ar puríssimo aguça-nos os sentidos. Surgem aldeias, pitorescas figuras de “cholos” vestindo coloridas roupas e bizarros chapéus a contrastar com os graves tons da terra: marrom, ocre, morado. Ruelas estreitas contorcem-se entre muros de pedra, tetos de palha, currais. Llamas ostentando brincos enfeitados ignoram altivas nossa curiosidade. O ar torna-se puríssimo.
O resfolegar do trem na íngreme subida, como quê nos contagia; nós também “resfolegamos”.
O “soroche” - mal das alturas, nos apanha de surpresa: palidez, lábios arroxeados, respiração penosa... Os enfermeiros do comboio acorrem rápidos com máscaras de oxigênio para mim e para Ina. Respiramos aliviadas e logo nos reanimamos e em poucas horas nos acostumamos, como nos garantiram.
Em Huancayo, a feira dominical é uma festa colorida: ponchos de lã de vicunha, “cabazas” lavradas com figuras antropomórficas, símbolos incaicos e cenas rurais; esculturas em madeira; prataria - enfeites em filigrana, braceletes, anéis; tapeçarias, mantas, elaborados bordados, cerâmicas...
De tudo se vende e se compra. Comprei “de um tudo”; mas a melhor compra foi, sem dúvida, uma bela manta indígena.
A gente sempre tem o que aprender; uma índia prestimosa me ensinou a usá-la para levar nas costas, à moda delas, minha filhota, já cansada das andanças. Numa algaravia de castelhano e quéchua, entre cuidadosa e alegre ela me ajudou a acomodar a criança que, feliz, aconchegou-se a mim. Minha atitude insólita as divertiu. Riam-se: “- Mirad, que rica la gringuita!”
É muito agradável esse jeito de levar as crianças; o peso parece diminuir, os braços ficam livres, os bebês sentem-se confortáveis e podem até dormir enquanto a gente se movimenta livremente. Bom demais! Dali pra frente adotei de vez esse costume.
Os três anos que vivi no Peru – e onde nasceu minha segunda filha – Janine – foram, sem dúvida, dos melhores de nossa vida. Pelas aventuras inesquecíveis, pela variedade de climas e paisagens e, principalmente, pela acolhedora gentileza de seu povo.
Muchas gracias mis queridos peruanos!
Que experiências maravilhosas vc teve. E como as descreve bem, parece um filme. Vc escreve com muito realismo e também lirismo. Parabens!
ResponderExcluirde sua admiradora - Leandra
Ai, Marilena, eu que andei andando por esses trens, sinto, ao ler-te, como é bom poder reviver a viagem ao Peru, seus detalhes, através de suas palavras. É muito gostoso! Gracias!
ResponderExcluirAh, você está simplesmente linda nessa foto. Que vitalidade!
ResponderExcluiruau!... que legal rver vc aqui no meu "bloguinho", fico tão feliz quando me visitam!...
ResponderExcluirainda mais vc, que me é tão especial. Valeu demais! bjão da nena
Dulce - o recadinho "acima" foi para vcm que tenho a alegria de contar entre amigos do coração.
ResponderExcluirMas agradeço tbem a Leandra, a quem ainda não tive a honra de conhecer, mas sempre me visita e deixa seus amáveis comentários.
Volte sempre! abraço da marilena
Marilena: que viagem incrível! Também experimentei uma até Machu Pichu, nos idos de 83. Você, como sempre, num denso e delicoso texto, faz-nos reviver momentos tão especiais "y esquesitos"! Muchissimas "gracias à la vida" que você nos transmite!
ResponderExcluirabração
Claudio Vereza
Olha so a Ina! hehehe Voltei! As viagens!? Aaaaahhh as viagens.....
ResponderExcluirOi Nena!!! Como foi bom ver tudo isso!!!!Vc é maravilhosa!!! Saudades. Beijos...Anna Maria de Nicoletti Radzyckyj (lembra de mim?)Sou irmã de Tereza. Beijão.
ResponderExcluirola, Anna Maria - claro que lembro de vc na nossa velha e boa Pr. da Costa, uma menina linda! Qbom vê-la por aqui. Apareça sempre!
ResponderExcluirbjos, saudades - marilena