
Já é outono
A lua empalidece - já é outono.
Um lento outono
que arrasta brônzea solidão.
No escuro da noite, o trovão do mar
ressoa como um presságio.
Um vento trevoso tange nuvens pesadas.
Fechados ou abertos
os olhos nada veem
e as palavras pendem
na caverna do meu peito
como estalactites.
O tempo rói a memória.
Deixai-me ficar no coração da juventude
a esperar as primaveras de setembro.
Um lento outono
que arrasta brônzea solidão.
No escuro da noite, o trovão do mar
ressoa como um presságio.
Um vento trevoso tange nuvens pesadas.
Fechados ou abertos
os olhos nada veem
e as palavras pendem
na caverna do meu peito
como estalactites.
O tempo rói a memória.
Deixai-me ficar no coração da juventude
a esperar as primaveras de setembro.
Pacto
A vida traz oferendas:
o rosto do amado,
o favo prenhe de mel, - as abelhas.
E o vento que tange nuvens
e apaga estrelas no céu.
A vida traz oferendas:
as folhas secas de outono
em sua cama de bronze
e as carroças gemendo
como se fossem moendas
a devorar os caminhos.
A vida traz oferendas;
não as colha sem pensar.
Há um pacto entre o ser e o sonho,
entre a sede e o gole.
Põe teu nome na pedra
e espera pela flor.
Vendaval
Presa em torvelinho minhalma se desfolha
(para a mão do vento tudo é folha)
Na voragem do tempo
pouco a pouco se desfaz
fragmentada.
Ao tornar a primavera
será apenas pó
em luz filtrada.
Poeira de sol que se esgueira,
feixe de luz entre as ramas.
Vento, folha, luz e pó.
Ser tão pouco...
quase nada.
¨¨
Numa réstia de sol
ser a poeira da estrada.
(estes poemas constam do livro "De Silêncio e de Ânforas" - [livro III] - compondo com "Castelã da Lua" [livro I] e "Claridade" [livro II] a trilogia poética de Marilena Soneghet - 2004)
Outono para alguns, primavera para outros, e por enquanto....aqui é verão!
ResponderExcluir"e as carroças gemendo - como se fossem moendas - a devorar os caminhos" ... linda imagem.
ResponderExcluirModernidade, inspiração, originalidade são frequentes no seu jeito de dizer. Gostei!
De poeta para poeta - meus parabéns F. Silveira
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirAmei os três poemas! É incrível como sua forma de escrever permanece tão doce e delicada, mesmo narrando coisas tristes. Mesmo a tristeza fica bonita com o adorno de seus versos. Lendo seus poemas parece que escuto sua voz ao fundo, declamando, da mesma forma que escreve, suave, delicada e doce. Bjos.
ResponderExcluirObrigada, Leandra. Adorei "ouvi-la"
ResponderExcluirsaudades de sua música, de sua voz.
bjão da marilena
Depois de ler, fico inspirada pra dizer que gosto muito de você, Marilena querida!
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