
Há uma semana que chove no molhado. nas ruas formarm-se lagos e rios.
Saí para comprar pão no meu barquinho de papel. Singrei nas águas turvas com a intrepidez de uma
caravela colombiana. O vento fazia uma barafunda nos fios da chuva; com um sopro mais forte virou pelo avesso meu guarda-chuva preto que ficou parecendo um morcego torto - uma geringonça de pano molhado e varetas de aço retorcidas.
Esse guarda-chuva tem história. Chegou-me pelo correio, via sedex, no dia das mães, enviado por um leitor que curte minhas crônicas e, para maior mistério, manteve o anonimato.
A crônica que o motivou? tá bom; vou contar:
A CASA QUE NUNCA TINHA GUARDA-CHUVASEra a nossa. Uma vergonha! No tempo de minha infância as chuvas de verão caiam em rápidas bátegas; cada pingo desse tamanho! Mas logo o sol reinava. Era sol e chuva casamento de viúva, chuva e sol casamento de espanhol. Viúvas e espanhóis a casarem-se por todo o dia. E lá em casa guarda-chuva não esquentava lugar. Sumia.
Aí....papai foi ao Rio. Grande viagem. Longa viagem. De trem. E trouxe guarda-chuvas de presente para todos. Coloridos com florinhas pras filhas mocinhas; preto circunspecto para o filho, que já sonhava com as calças compridas; enfeitado de bonequinhos para a caçula – eu. Nossa, que festa! Naquele tempo éramos seis.
Loucos por um pé-dágua para sairmos a ostentar os ditos-cujos, este não se fez rogar. Com trovões e tudo irrompeu o primeiro aguaceiro, e outro mais, mais outro...
Numa trégua das chuvas, a tarde se mostrando ensolarada, Elza, a irmã maior, saiu com sua amiga Maria do Carmo, a tomar sorvete na Pingüim, no maior chiquê. Naturalmente prevenira-se levando a belezura do guarda-chuva novo. Ao saírem da sorveteria, o sol ainda sorria, as vitrines convidavam a uma espiada. Mas, não demorou muito, nova pancada d’água caiu das nuvens. Cadê a sombrinha? Voltaram as duas correndo até a Pingüim – a sombrinha já era. Ninguém sabia, ninguém viu.
Yamara, a segunda, foi à Igreja. Seu véu branco rendado, o livro de missa cheio de santinhos, o rosário de prata bento por Pio XII. Essa, então... distraída como quê, rezou, rezou e, etérea, plena de graça e santidade, só se deu conta do sumiço três dias depois. Perdera-se o guarda-chuva. Para sempre, amém.
Lourdinha, linda, foi ao cinema, assistir “um filme quase maravilhoso”. O “quase” - contou ela em pitoresca crônica -, ficou por conta de uma estraga prazeres que, já o tendo visto, reportava, irritantemente alto, todos os lances mais emocionantes ainda por vir. E a sina dos guarda-chuvas cumpriu-se mais uma vez. Tão amarelinho, tão engraçadinho... o vento levou!
Cianinha bonitinha foi toda faceira pro colégio - que era ali, ó, nem precisava de umbrella (como diria minha vó italiana) - mas estava doida por estreá-la. Azul-marinho de “pois” brancos, combinava com o uniforme. Nessa de sai chuva, vem sol, sai chuva vem sol, adivinhem? Esse também escafedeu-se. Onde? Quando? Como?
Resumo da novela: Fernando esqueceu no bonde, o seu, que lhe emprestava ares de rapaz. Voltou menino em suas calças curtas – cabisbaixo e culpado. Eu, se mostradeira, levei o meu pra pracinha (a do Carmo, onde a gente morava). A girar pra lá e pra cá que nem pião, guarda-chuva entrou roda, bambeou de mão em mão. No jogo do pega-pega, esconde-onde (?), ele sumiu. Cadê a sombrinha que tava aqui? Cataventou, se encantou, Mary Poppins levou? “Não sei; só sei que foi assim.”
A vida é feita de ciclos repetitivos. Hoje, duas gerações depois, na minha casa a vergonha se repete. Não temos um só guarda-chuva. E daí... eu nem gosto mesmo... Nem de guarda-chuva, nem de relógio, nem de celular, nem de bússola. Só de boné (móde o sol!)