segunda-feira, 16 de novembro de 2009

"Andar à toa é coisa de ave"


"Meu avô andava à toa.
Não prestava pra quase nunca.
Mas sabia o nome dos ventos.
E todos os assobios para chamar passarinhos.
Certas pombas tomavam ele por telhado e passavam
as tardes frequentando o seu ombro".
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"Penso que ele era provedor de poesia como as aves e os lírios do campo".
(Manoel de Barros)

domingo, 15 de novembro de 2009

Conhece Manoel?



*** Manoel é tão argiloso que inventou o barro de moldar palavras. (
Foi assim que eu defini Manoel no meu livro de poesias "De silêncio e de Ânforas")

Para quem não sabe (e não sabe o que está perdendo), Manoel é poeta. Meu marido que me desculpe, mas eu sou apaixonada por Manoel de Barros. Verdade que nunca o vi e ele nem supõe que eu existo ... e penso. E que me flagro muitas vezes em estado de poesia.

De origem pantaneira, para ele lagartos e rãs "rios e mariposas emprenhados de sol" são matéria de poesia. E loucos e crianças e bêbados. Às vezes ele se define: "sou fuga para flauta e pedra doce" / "a poesia me desbrava" / "com águas me alinhavo" [....] " O que eu queria fazer era um livro sobre o nada. O que eu queria fazer era um brinquedo com as palavras". [....] "Fazer coisas desúteis" / "um alarme para o silêncio" "um abridor para o amanhecer" / Há mistérios nascendo por cima das palavras..." / "A partir do inominado e do insignificante é que eu canto".

Eu tenho quase todos os livros de Manoel de Barros. Quando os leio fico tão impregnada que me sinto meio árvore, aprendo musgos e estrelas, andorinhas me aninham. Daí que dia desses escrevi uma crônica à la Manoel de Barros (sem pretensões, me desculpem) só para brincar de aprendiz.
*** Eis a crônica:

"INVENTAR AUMENTA O MUNDO"

Depois que a gente lê o poeta Manoel de Barros, a gente se treslouca! Entra em estado de desarvoramento. Desliza em fresta de parede, lagarteia num sapato velho como se num castelo de nuvem, lê poema prateado em gosma de lesma, descobre o ovo do silêncio num ninho de algazarras.

Se a gente desamarrar a sensatez ziguezagueia a andar de lado, modo caranguejo. Daí que eu comecei a entender porque me arborizo nos urubus. Dêsdesse tamaninho gosto de urubus. Já voei parada com eles, já voei para trás (bem calmamente - sem o desesperado fremir dos beija-flores). É que de nascença os urubus amansam os ventos.
Coruja também. Cisma com um olho só e sabe que asa de borboleta não está nem aí pro cio da lagarta. O olho da coruja me cisma. Quando a cabeça dela desatarraxa pra trás dá até um medo de escorregar pelo túnel do tempo. Mas é bonito porque é cor de labirinto quando esverdeia o amanhecer.
Vi um homem carregando um saco plástico cheio de latinhas de cerveja. Eram néscias! As latas velhas de Manoel de Barros tem dignidade de ferrugem. O tempo se esconde nelas para fugir do relógio. O relógio foi a invenção mais inútil. Não tem serventia pra pássaro. Se presume sol - mas não tem a grandeza das inutilidades, como um traste que teve seu dia de flor. Como a saparia que engole o sol de dia e o arrota de noite.

Moro num oco de pau entre o asfalto e os buracos que traçam as ruas de terra. Tenho que dançar conforme a zabumba. É bom ter dois lados, ter vista panorâmica, feito passarinho. Daí que me pertenço mais: sei dos hieróglifos do caranguejo na areia e tenho faro de butique - madame instituída não passa por mim incólume; detecto pelo troc dos sapatos (se quebra o salto, tresanda).

Calango é que sabe viver - se fossiliza ao sol, mas some num raio quando o chão se move de vermelho. Manoel de Barros ensina a viver às avessas. Tudo que desentorta, brilha. Tudo que arvorece aromeia. A geada aprisiona o sol na gota de orvalho (aprendi a ver tudo isso com os óculos dele - do Manoel) (ou será que eu já era estrábica de nascença e ele me desvendou?)

Todo tipo de pena me desempenha (ou me desempena): pena de avôo, pena de dor, pena de anjo, penachos. Penas... para que te quero? Esta, para escrever. De preferência a modo subindo correnteza que nem pacus e curimatãs em via de piracema.

Brincadeira tem desoras - sua bênção, Manoel!?

(Com excessão dos textos devidamente identificados - no caso, os de Manoel de Barros -, todas as crônicas e poemas constantes neste blogg são de autoria de Marilena Soneghet. A reprodução é permitida,desde que citada a autoria.)



domingo, 1 de novembro de 2009

Registro de diário 2



Há uma semana que chove no molhado. nas ruas formarm-se lagos e rios.
Saí para comprar pão no meu barquinho de papel. Singrei nas águas turvas com a intrepidez de uma caravela colombiana. O vento fazia uma barafunda nos fios da chuva; com um sopro mais forte virou pelo avesso meu guarda-chuva preto que ficou parecendo um morcego torto - uma geringonça de pano molhado e varetas de aço retorcidas.

Esse guarda-chuva tem história. Chegou-me pelo correio, via sedex, no dia das mães, enviado por um leitor que curte minhas crônicas e, para maior mistério, manteve o anonimato.
A crônica que o motivou? tá bom; vou contar:


A CASA QUE NUNCA TINHA GUARDA-CHUVAS


Era a nossa. Uma vergonha! No tempo de minha infância as chuvas de verão caiam em rápidas bátegas; cada pingo desse tamanho! Mas logo o sol reinava. Era sol e chuva casamento de viúva, chuva e sol casamento de espanhol. Viúvas e espanhóis a casarem-se por todo o dia. E lá em casa guarda-chuva não esquentava lugar. Sumia.

Aí....papai foi ao Rio. Grande viagem. Longa viagem. De trem. E trouxe guarda-chuvas de presente para todos. Coloridos com florinhas pras filhas mocinhas; preto circunspecto para o filho, que já sonhava com as calças compridas; enfeitado de bonequinhos para a caçula – eu. Nossa, que festa! Naquele tempo éramos seis.

Loucos por um pé-dágua para sairmos a ostentar os ditos-cujos, este não se fez rogar. Com trovões e tudo irrompeu o primeiro aguaceiro, e outro mais, mais outro...

Numa trégua das chuvas, a tarde se mostrando ensolarada, Elza, a irmã maior, saiu com sua amiga Maria do Carmo, a tomar sorvete na Pingüim, no maior chiquê. Naturalmente prevenira-se levando a belezura do guarda-chuva novo. Ao saírem da sorveteria, o sol ainda sorria, as vitrines convidavam a uma espiada. Mas, não demorou muito, nova pancada d’água caiu das nuvens. Cadê a sombrinha? Voltaram as duas correndo até a Pingüim – a sombrinha já era. Ninguém sabia, ninguém viu.

Yamara, a segunda, foi à Igreja. Seu véu branco rendado, o livro de missa cheio de santinhos, o rosário de prata bento por Pio XII. Essa, então... distraída como quê, rezou, rezou e, etérea, plena de graça e santidade, só se deu conta do sumiço três dias depois. Perdera-se o guarda-chuva. Para sempre, amém.

Lourdinha, linda, foi ao cinema, assistir “um filme quase maravilhoso”. O “quase” - contou ela em pitoresca crônica -, ficou por conta de uma estraga prazeres que, já o tendo visto, reportava, irritantemente alto, todos os lances mais emocionantes ainda por vir. E a sina dos guarda-chuvas cumpriu-se mais uma vez. Tão amarelinho, tão engraçadinho... o vento levou!

Cianinha bonitinha foi toda faceira pro colégio - que era ali, ó, nem precisava de umbrella (como diria minha vó italiana) - mas estava doida por estreá-la. Azul-marinho de “pois” brancos, combinava com o uniforme. Nessa de sai chuva, vem sol, sai chuva vem sol, adivinhem? Esse também escafedeu-se. Onde? Quando? Como?

Resumo da novela: Fernando esqueceu no bonde, o seu, que lhe emprestava ares de rapaz. Voltou menino em suas calças curtas – cabisbaixo e culpado. Eu, se mostradeira, levei o meu pra pracinha (a do Carmo, onde a gente morava). A girar pra lá e pra cá que nem pião, guarda-chuva entrou roda, bambeou de mão em mão. No jogo do pega-pega, esconde-onde (?), ele sumiu. Cadê a sombrinha que tava aqui? Cataventou, se encantou, Mary Poppins levou? “Não sei; só sei que foi assim.”

A vida é feita de ciclos repetitivos. Hoje, duas gerações depois, na minha casa a vergonha se repete. Não temos um só guarda-chuva. E daí... eu nem gosto mesmo... Nem de guarda-chuva, nem de relógio, nem de celular, nem de bússola. Só de boné (móde o sol!)

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Meu planeta


Sempre fui um pouco aventureira e a baía de Vitória, de enseadas sinuosas e pontilhada de ilhotas, me atraía. Não raro, ao entardecer, por uns poucos “mirréis” eu alugava uma catraia no porto das barcas, e fazia a travessia. Lá do outro lado ficava o meu planeta: uma elevação de pedra sob a guarda do Penedo, pertinho do Péla-macaco. Era meu observatório, o refúgio onde eu podia, a bel-prazer, render-me a devaneios.

Deliciava-me perambular por ali, escalando descalça a pedreira onde cresciam bromélias. Aspirava a maresia, a olhar minha ilha toda vestida de ouro ao esplendor crepuscular: a Catedral, os prédios a deitarem sombras, os morros onde as casinhas se amontoavam para ver o cenário... Eu conhecia de cor a paisagem, mas Vitória surgia transfigurada ao toque dos últimos raios do sol que já se deitava no horizonte – um bracelete de âmbar no braço esmeralda do mar.

O mar, em esmeralda e ouro, cochilava manso. Barcas atravessavam preguiçosamente a baía. Uma estranha ausência me agitava o coração.

Havia uma coruja. Pousava a poucos metros de mim, olhava-me com olhos cismadores e me aceitava. Eu já fazia parte do seu mundo de pedra, ocaso, mar e nostalgia. Eu e a coruja nos observávamos mutuamente. Não com desconfiança; com um crescente sentimento de identificação. Afinávamos nossas liras para a mesma melodia nessa hora de luminoso silêncio.

Algumas vozes longínquas, vindas das casas além, denunciavam tons intimistas de bulha doméstica, quando voltam da escola os filhos, e os homens, do trabalho. Era vida. Vida a esvair-se na distância, na quietude da noite que repentinamente chegava com seu cortejo de estrelas andarilhas.

Eu me deixava ficar, a cantar baixinho, a dizer versos.
Sombras pousavam sobre os telhados, como pássaros. A coruja, penas arrepiadas pelo vento, a cochilar com um olho só, fundia-se aos poucos na noite. Esfumavam-se as silhuetas - era preciso voltar, descer o morro às escuras, tomar a barca e atravessar a baía.

Eu me deixava ficar, a aspirar o ar leve de um anoitecer ameno, impregnado de eternidade.
Em minha alma de menina ficou impresso um mapa; uma ilha e seu tesouro. Para evocá-la, basta-me a nostalgia de um crepúsculo; por alguns mírréis de sonho o tempo pára. Há uma barca à minha espera. E uma coruja que tem saudades de mim.
(desenho inspirado em autor desconhecido)

poesia ainda




Tática


... um olhar longo, demorado.

Adivinho o significado
do silêncio
submerso no além das pupilas

:
aperto os lábios e calo -
permito que as idéias circulem
sem palavras -
(a economia de palavras não é virtude exclusiva
das monjas na clausura).

No espaço entre a pergunta e a resposta
falam por si as linhas do rosto.

Espero um sinal
Penso, analiso

...mas

quero mais.
Quero a claridade que raia no horizonte
- dentro.

A descoberta do outro
me revela!
Textos e poemas de Marilena Soneghet. Direitos autorais reservados. Reprodução permitida desde que citada a autoria.

Registro no diário : 28.10.2009

Bonel empreendeu sua mais longa viagem: foi pro céu! Deixou-nos a imensa saudade de seu jeito manso de ser, sua voz pausada, sua sinceridade. Tive o privilégio de ser sua amiga.

Bonel era poeta! Tinha o hábito encantador de telefonar em dia e hora incerto, pedir notícias, conversar um pouquinho... e, ao despedir-se, dizer um poema. Depois, desligava, sem nos dar tempo de falar sequer o quanto nos encantara.

Uma certa manhã telefonou-me bem cedo. Fizera um poema inspirado em uma poesia minha e o leu para mim. Eu o ouvi, surpresa e feliz. Não tive a menor chance de dizer-lhe nada; simplesmente, como era de seu feitio, desligou.

E agora, Bonel... com alcançá-lo no país do sempre?

(foto: da direira > Bonel, Marilena, Keila e Dulce no teatro da Barra)